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Máfia no futebol: grupo cogitava arrendar clube para manipular resultados.
Postado em: 26/10/2017 - 11:48 Atualizado em: 26/10/2017 - 12:09 Publicado por: Rota Esportiva
Declaração consta em delação premiada de homem apontado como líder de organização que fraudou partidas de campeonatos de pouca visibilidade no Brasil.

Organograma da quadrilha que adulterou resultados no futebol (Foto: Reprodução)

O grupo que é acusado de manipular resultados no futebol brasileiro para beneficiar apostadores cogitou arrendar um clube em dificuldades financeiras para fraudar placares. A revelação é de Anderson da Silva Rodrigues, apontado pelo Ministério Público de São Paulo como o chefe do esquema no país.

A afirmação consta na delação premiada de Rodrigues, a que o GloboEsporte.com teve acesso. O depoimento foi colhido em fevereiro e homologado em abril pelo juiz Ulisses Pascolati Júnior, do Anexo de Defesa do Torcedor do Jecrim (Juizado Especial Criminal) de São Paulo.

A transcrição do depoimento tem apenas três páginas e acrescenta pouco ao que a Polícia Civil paulista já havia descoberto durante investigação que levou à Operação Game Over, deflagrada em julho de 2016 com a prisão de nove pessoas – Rodrigues não foi encontrado à época e negociou responder ao processo em liberdade quando se tornou colaborador.

Rodrigues é o segundo réu a fechar acordo de delação premiada com a Justiça. O primeiro foi o ex-jogador Márcio Souza da Silva, que acertou a colaboração ao ser preso há pouco mais de um ano. Foi ele quem identificou dois malaios como os responsáveis por financiar o grupo. Jawahir Saliman e Zulfika Bin Mohd Sultan, porém, nunca foram encontrados.

Investigadores ligados ao caso acreditam que, apesar da homologação da delação, Rodrigues pode perder os benefícios do acordo – que encurtariam sua pena em caso de condenação, por exemplo – por não ter apresentado provas que corroboram o depoimento.

O caso terá audiência no próximo dia 12 de dezembro, quando testemunhas e réus serão ouvidos. A sentença deve ser conhecida entre o final deste ano e o início de 2018. Uma condenação, se houver, será a primeira no Brasil por manipulação de resultados esportivos, que só se tornou crime em 2010.

Depoimento

À Justiça, Rodrigues contou que conheceu Márcio Souza em 2009 quando trabalhava no Mesquita, do Rio. Foi Márcio quem, anos mais tarde, apresentou os malaios que, primeiro, ofereceram uma parceria para prospecção de atletas para, depois, apresentarem o esquema de fraudes.

Rodrigues afirmou que iniciou contatos com pessoas que poderiam ajudar o grupo, que oferecia dinheiro a dirigentes e jogadores para que os placares fossem manipulados – os valores variavam, com ofertas de R$ 50 mil a R$ 120 mil por partida, sempre em campeonatos de pouca visibilidade.

Para garantir o resultado, o homem tido como líder do grupo disse que eles cogitaram comandar um clube pequeno:

– Eles (os denunciados) queriam arrendar um clube já existente, com dificuldades financeiras, para que o mesmo ganhasse todos os jogos quando não estivesse no quadro de apostas, e quando entrasse, aí sim perderia o jogo. Para isso, o clube já deveria estar fechado com o grupo – aponta a transcrição.

Rodrigues não deixa claro se havia um clube específico na mira ou se era apenas uma ideia embrionária.

Trecho da delação premiada de Anderson da Silva Rodrigues, acusado de manipular resultados no futebol (Foto: Reprodução)

Ele também cita um personagem até então desconhecido das autoridades, um estrangeiro a quem ele chama apenas de "Fred". Ele ainda não foi identificado.

As investigações da Polícia Civil começaram em setembro de 2015 com a suspeita sobre o resultado de uma partida entre Atlético Sorocaba e Santo André pelo Paulista sub-15. Treze pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público de São Paulo.

A reportagem procurou o advogado de Rodrigues para comentar as declarações à Justiça, mas ele não foi encontrado. Os outros 12 réus negam participação nos crimes.

Inquéritos

Além deste caso, Rodrigues também protagoniza um outro inquérito por ter sido reconhecido pelo ex-presidente do América, de São José do Rio Preto, José Carlos Pereira, como o homem que ofereceu R$ 160 mil ao cartola para que a equipe fosse derrotada pelo Vocem, de Assis, em confronto da quarta divisão em 2015. Ao dirigente, Rodrigues se apresentou como “Edmilson”.

É uma das sete investigações sobre manipulação de resultados em andamento na Drade (Delegacia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva), de São Paulo.

Ao menos um desses casos levou a um indiciamento, o de Anderson Negrini, ex-supervisor do Votuporanguense, suspeito de oferecer dinheiro a um jogador do Mogi Mirim em abril, na véspera de um duelo entre as equipes pela Série A-2 do Paulista.

Em mensagem de celular, Negrini aborda o atleta:

– Irmão, vou ser direto. Está a fim de levar uma grana? Senão, beleza. Nem ofereço. Precisamos ganhar amanhã.

Ignorado pelo jogador, Negrini primeiro tenta ligar para o atleta. Depois, envia nova mensagem, em que culpa o irmão por ter usado seu celular para enviar a mensagem.

Ao TJD (Tribunal de Justiça Desportiva) de São Paulo, Negrini admitiu ter sido o responsável pela mensagem, mas disse que era uma brincadeira feita durante um churrasco em que “havia bebido cerveja”. Ele foi suspenso por 360 dias pelo órgão.

Os outros inquéritos, entre eles dois que envolvem a Matonense, da terceira divisão paulista, pouco avançaram, por ora.

Fonte: globoesporte

 
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